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Esses últimos anos não se apresentaram como algo singular.
Pelo contrário, vieram plurais, fragmentados, desalinhados. A singularidade
nunca deu conta da realidade concreta da existência. O próprio ato de observar
o mundo já é plural. Mesmo a subjetividade, que num primeiro momento parece
algo íntimo, pessoal, quase sagrado, não passa de uma das verdades universais
que o sistema nos ensinou a engolir. Pra falar a verdade, eu nem sei quem eu
sou ainda. Mesmo nos exercícios mais profundos de análise da existência, ela
nunca se mostra como algo que mora só dentro de mim. Ela sempre aparece
espalhada, atravessada, plural. Sei lá, não sei se isso faz sentido, e talvez
as coisas não precisem fazer sentido o tempo todo. Sempre penso por que parei
de escrever pro sono. Talvez o sono tenha morrido dentro de mim, junto com
aquela falsa idealização de um inconsciente freudiano que prometia respostas.
As coisas sempre demoram, mas sempre acontecem. E aconteceu
de novo: estou completamente perdido na existência. Lembro de quando tinha
cinco anos e já sentia o vazio que tudo isso representa. Nem o Sísifo da
imaginação feliz lida bem com esse vazio. Parece que é sempre uma caverna atrás
da outra, atrás da outra, tudo isso no auge de amar o destino de forma crua,
sem romantização. O eu que eu vejo é subjetivo, viva a contradição. Pensamentos
aleatórios às vezes levam a lugares curiosos, outras vezes só aprofundam o
buraco.
Acredito que hoje tenho mais questões do que nunca. Penso
bastante e comecei a perceber que meus objetivos existenciais ainda fazem
sentido, mesmo sentindo o tempo todo o vazio que a existência impõe. Mesmo
levando tiros de todos os lados por ser negro. Sempre rótulos, definições,
essências tão agradáveis quanto mastigar um cacto florido. Ser negro me
empurrou para um aprofundamento que antes eu evitava. Antes, eu aceitava as
coisas com mais sutileza. Hoje, sutileza virou suplemento alimentar: caro, dispensável
e vendido como solução.
No fim das contas, talvez não exista conclusão alguma.
Existir não fecha ciclos, só acumula camadas. Eu continuo aqui, sem síntese,
sem promessa de redenção, habitando esse espaço estranho entre o vazio e a
insistência. Não cheguei a nenhuma verdade final, cheguei, no máximo, a um
cansaço lúcido. A existência não se resolve, ela se atravessa. E enquanto não
houver sentido suficiente pra sustentar o dia, sigo fazendo o que dá: pensando,
escrevendo, errando, contradizendo, existindo mal feito. Talvez seja só isso.
Talvez isso já seja tudo.

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